Meu nome é Letícia e sou de São Paulo, Brasil. Me formei no Colégio Pentágono, um colégio particular brasileiro que segue o currículo nacional, e vou começar minha graduação na Grinnell College neste outono. Pretendo me especializar em Neurociência, ao mesmo tempo em que exploro Economia, já que essa combinação se tornou central para minha visão acadêmica durante meu processo de candidatura.
Eu me formei com um GPA de 9,1 de 10, o que me colocou entre os 10% melhores da minha turma. Em certo momento, me preocupei que essa nota não fosse competitiva o suficiente em comparação com alunos com históricos escolares quase perfeitos. Com o tempo, percebi que as faculdades americanas avaliam os alunos dentro de seu contexto, então elas consideram o que estava disponível na sua escola, o rigor do seu currículo e sua classificação na turma.
Descobrindo o sistema de candidatura dos EUA
Aprendi sobre o processo seletivo para faculdades americanas pela primeira vez no sétimo ano, por meio de uma organização de mentoria brasileira. Naquela época, parecia cedo para pensar em universidades, mas isso me apresentou a um modelo de admissão completamente diferente.
Inicialmente, eu estava mais inclinada para a Europa ou o Canadá. No entanto, o que me atraiu para os Estados Unidos foi o processo de avaliação holística. As universidades olham além das notas e das pontuações nos testes. Elas avaliam seus interesses de longo prazo, o impacto na comunidade e sua história pessoal. Essa abordagem centrada no ser humano parecia alinhada com o tipo de aluna que eu queria ser.
Preparação Acadêmica e Testes Padronizados
Como eu não tinha acesso a cursos IB ou AP, foquei em maximizar o que minha escola oferecia. Tive um desempenho consistentemente bom em aulas avançadas de STEM e mantive relacionamentos fortes com os professores que mais tarde escreveram minhas cartas de recomendação.
Para os testes padronizados, fiz o SAT várias vezes. No final, consegui uma pontuação de 1530 (750 em Inglês, 780 em Matemática). Também enviei o Duolingo English Test e obtive 150 pontos.
Construindo um perfil focado em ciências
Meu interesse em Neurociência se desenvolveu gradualmente por meio de experiências práticas que tive ao longo do ensino médio.

No 11º ano, concluí um estágio de um ano em um laboratório de bioquímica na Universidade de São Paulo. Essa experiência me expôs à metodologia de pesquisa e a diferentes técnicas de laboratório; no entanto, o mais importante foi que ela me ensinou a disciplina necessária na ciência experimental.
A experiência que mais moldou minha candidatura, de fato, ocorreu durante meu ano sabático. Decidi fortalecer minha direção acadêmica e concluí um estágio de neuroengenharia em tempo integral no Instituto Santos Dumont, em outro estado do Brasil. Essa posição exigiu que eu me mudasse e me comprometesse com 40 horas semanais.
Diferente do meu estágio em laboratório, essa função combinava Neurociência com exposição clínica. Trabalhei com pacientes que tinham lesões na medula espinhal e observei como a pesquisa biomédica se cruza com vidas humanas reais. Um momento em particular ficou marcado para mim: um paciente perguntou se voltaria a andar. Essa pergunta me forçou a refletir sobre as dimensões éticas e emocionais da Neurociência, não apenas os aspectos técnicos. Como resultado, esse momento e essa percepção se tornaram o tema central do meu personal statement.
Além dos estágios, também participei de iniciativas mais amplas. Atuei como delegada brasileira na Cúpula Global de Jovens pelo Clima, onde mais de 200 jovens líderes elaboraram recomendações de políticas relacionadas ao clima, saúde e justiça social. Além disso, ajudei a organizar a Olimpíada Feminina de Biologia, uma iniciativa com o objetivo de ampliar o acesso a competições de ciências para meninas, especialmente aquelas em regiões rurais e carentes. O projeto alcançou mais de 1.300 participantes em todo o Brasil.
Tirando um Ano Sabático e se Candidatando Novamente
No meu primeiro ciclo de candidaturas, fui admitida em várias faculdades com bolsas de mérito. No entanto, senti que minha candidatura não refletia totalmente minha direção acadêmica ou meus objetivos de longo prazo. Após uma cuidadosa reflexão, decidi tirar um ano sabático e me candidatar novamente.
Não foi uma decisão fácil. Eu já tinha opções acessíveis. Mas eu acreditava que, com experiências mais fortes e redações aprimoradas, minha candidatura poderia melhorar significativamente.
Quando decidi me candidatar novamente, foquei em três melhorias principais:
Obter uma exposição mais forte à pesquisa e à área clínica
Reescrever completamente meu personal statement
Refazer os testes padronizados para fortalecer meu perfil acadêmico
Então foi exatamente isso que fiz durante meu ano sabático para apresentar um perfil ainda melhor como estudante internacional.

Redações e Estratégia de Candidatura
Comecei a escrever meu personal statement meses antes da abertura do Common App. Começar cedo foi uma das melhores decisões que tomei. A segunda metade do ano se tornou intensa com as redações complementares e os prazos, então ter a redação principal rascunhada com antecedência reduziu significativamente a pressão.
Meu personal statement foi centrado no meu estágio de neuroengenharia e na interação com o paciente que moldou minha perspectiva sobre a Neurociência. Estruturei a redação de forma criativa — inspirada no formato de um artigo científico (introdução, metodologia, discussão), mas escrita com uma voz reflexiva e narrativa.
Especificamente para Grinnell, enviei todos os materiais opcionais. Escrevi uma redação adicional conectando minha iniciativa da Olimpíada Feminina de Biologia ao compromisso de Grinnell em expandir o acesso à ciência para estudantes sub-representados. Também enviei uma amostra de redação sobre neurodireitos — explorando questões éticas relacionadas a dados neurológicos e autonomia do paciente, mesclando Neurociência com direito e políticas públicas.
Enviar materiais opcionais me permitiu demonstrar profundidade intelectual além da minha candidatura principal.
Por que a Grinnell College?
A Grinnell se destacou para mim por várias razões. Primeiro, seu currículo aberto permite que os alunos explorem múltiplas disciplinas sem requisitos de distribuição rígidos. Eu sabia que queria estudar Neurociência, mas também queria a flexibilidade para cursar economia e, potencialmente, saúde pública.
Em segundo lugar, a Grinnell tem um forte histórico de colocar graduados nos melhores programas de doutorado. Neste momento, estou mais inclinada a buscar um doutorado em economia da saúde ou epidemiologia do que a cursar faculdade de medicina, e o ambiente acadêmico da Grinnell apoia esse caminho.
Finalmente, a Grinnell é conhecida por ser generosa com o auxílio financeiro para estudantes internacionais, o que era essencial para mim.

Auxílio Financeiro como Estudante Internacional
Como candidata internacional que precisava de auxílio financeiro, eu entendia que o processo seria competitivo. Enviei o CSS Profile, e a Grinnell me concedeu aproximadamente US$ 76.000 por ano, de um custo total de cerca de US$ 96.000. Minha contribuição familiar esperada é de cerca de US$ 20.000 anuais, e parte do pacote inclui o programa de trabalho e estudo.
Candidatar-se a auxílio financeiro como estudante internacional adiciona outra camada de competitividade. No entanto, uma pesquisa cuidadosa (incluindo a análise do Common Data Set de cada faculdade) me ajudou a construir uma lista de faculdades estratégica, focada em instituições generosas com um histórico de apoiar financeiramente estudantes internacionais.
Lidando com a Dúvida e a Comparação
Uma das partes mais difíceis do processo foi a comparação. É quase impossível não se comparar com outros candidatos, especialmente quando você vê perfis online que parecem extraordinários.
O que me ajudou a manter a confiança foi entender que as decisões do processo seletivo não se baseiam apenas em estatísticas. Compatibilidade, narrativa e prioridades institucionais também importam muito. Uma candidatura não é apenas uma lista de conquistas; é uma história coesa sobre você.
Outra etapa difícil foi o período de espera após o envio das candidaturas. Uma vez que tudo é enviado, não há mais nada que você possa controlar ou adicionar no seu Common App. Manter-se ocupada e focar nas rotinas diárias realmente ajuda a manter o equilíbrio.
Conselhos para Candidatos Internacionais
Se eu tivesse que dar um conselho honesto para estudantes internacionais, seria:
Comece cedo, porque candidaturas fortes levam anos para serem construídas
Destaque-se dentro do seu contexto disponível, não no de outra pessoa
Aprofunde-se em áreas que genuinamente te interessam
Mantenha relacionamentos fortes com os professores para obter recomendações significativas
Não tenha medo de tirar um ano sabático se você acredita que seu perfil pode crescer
O processo de candidatura dos EUA é exigente, especialmente para estudantes internacionais que precisam de auxílio financeiro. Mas com preparação minuciosa e autorreflexão, é possível transformar a incerteza em uma oportunidade que muda a vida.




